Ponto e jornada

Contratar mais gente ou pagar hora extra? A conta da escala 5x2

Simulação de uma loja com 4 funcionários que passa de 44h para 40h: horas que faltam, custo da hora extra, banco de horas, meio período e riscos de cada opção.

Por Equipe RHone · Publicado em · 9 min de leitura

Operadoras de caixa atendendo clientes nas frentes de caixa numeradas de um supermercado popular
Foto: Iguaçuano94/Wikimedia Commons (CC0)
Neste artigo

Quando a jornada cai de 44 para 40 horas e o salário não pode cair, a loja perde horas de trabalho e a hora de cada pessoa fica mais cara. Para cobrir o mesmo horário, sobram poucas saídas: pagar hora extra, contratar, usar banco de horas ou reorganizar a escala. Nenhuma é de graça, e a mais barata no primeiro mês nem sempre é a mais barata no ano.

Este artigo faz a conta com uma simulação, mostra onde cada opção costuma dar problema e indica o que levar para a sua contabilidade. Para as regras da mudança, veja escala 5x2 e o fim da 6x1.

Aviso: este conteúdo é informativo e não substitui orientação jurídica ou contábil. Os números abaixo são uma simulação ilustrativa, com salário escolhido para facilitar a conta, e não incluem encargos, benefícios nem regras da sua convenção coletiva. O custo real de cada opção deve ser calculado pela sua contabilidade.

O ponto de partida: a loja da simulação

Imagine uma loja de roupas com 4 vendedores, cada um em 6x1 de 44 horas semanais (8 horas de segunda a sexta e 4 horas no sábado). Todos recebem um salário de R$ 2.200,00 por mês. O valor é ilustrativo e não corresponde ao piso de nenhuma categoria.

A partir da EC 141/2026:

  • em dezembro de 2026, o limite passa a ser de 42 horas e cada pessoa ganha 2 dias de repouso por semana;
  • em dezembro de 2027, o limite cai para 40 horas;
  • o salário não pode ser reduzido (art. 2º da emenda).

Como 42 horas em 5 dias exigem 8h24 por dia, acima do limite de 8 horas, essa fase depende de convenção ou acordo coletivo (art. 7º da emenda). Por isso, a simulação usa direto o cenário de 40 horas, que é o mais seguro para quem não tem norma coletiva específica.

Passo 1: quantas horas faltam

Hoje (44h) Com 40h
Horas por pessoa na semana 44 40
Horas da equipe na semana 176 160
Horas que faltam para cobrir o mesmo horário 0 16 por semana
Horas que faltam no mês (16 × 4,33 semanas) 0 cerca de 69

Se a loja precisa mesmo das 176 horas, são cerca de 69 horas por mês a cobrir de outro jeito.

Passo 2: quanto vale a hora agora

O salário continua o mesmo, mas paga menos horas. Na folha, o valor da hora do mensalista costuma ser calculado com um divisor: 220 para 44 horas semanais e 200 para 40 horas (o TST trata do divisor 200 para quem trabalha 40 horas na Súmula 431). Confirme o divisor com a sua contabilidade.

Com 44h Com 40h
Valor da hora normal (R$ 2.200 ÷ divisor) R$ 10,00 R$ 11,00
Valor da hora extra (+50%) R$ 15,00 R$ 16,50

A hora fica 10% mais cara antes de qualquer decisão. O adicional mínimo de 50% para hora extra está na Constituição (art. 7º, XVI) e na CLT (art. 59, § 1º). A sua convenção pode prever um percentual maior.

Frente de caixa de supermercado no Rio de Janeiro, com operadores e clientes passando as compras
Foto: Iguaçuano94/Wikimedia Commons (CC0)

Passo 3: as opções, uma a uma

Opção A: pagar hora extra

As 16 horas semanais divididas entre os 4 vendedores dão 4 horas extras por pessoa por semana, dentro do limite de 2 horas extras por dia (CLT, art. 59). No mês, o custo direto fica perto de:

69 horas × R$ 16,50 = R$ 1.138,50 por mês, antes dos reflexos e encargos.

Parece simples, mas há custos que não aparecem nessa conta:

  • Reflexos. A hora extra habitual entra no cálculo do descanso semanal remunerado (Lei 605/1949, art. 7º) e das férias (CLT, art. 142, § 5º). A contabilidade também inclui os reflexos em 13º e FGTS.
  • Encargos. Sobre a hora extra incidem os mesmos encargos da folha, que variam conforme o regime tributário da empresa.
  • Saída da hora extra. Se a hora extra habitual for retirada depois de pelo menos 1 ano, a Súmula 291 do TST prevê indenização ao empregado.
  • Cansaço e erro. Hora extra todo dia tende a gerar faltas, atrasos e mais pedidos de correção de ponto.
  • Teto. Se alguém faltar ou sair de férias, não há como os outros cobrirem além de 2 horas por dia.

Opção B: banco de horas

O banco de horas permite trabalhar mais em um dia e compensar com folga em outro, sem pagar a hora como extra. O problema é que, na simulação, a falta de horas é permanente: toda hora acumulada precisa virar folga depois, e essa folga abre o mesmo buraco de novo. O banco resolve picos, como dezembro ou datas comemorativas, não uma falta fixa de 16 horas por semana. Prazos, limites e modalidades estão em banco de horas pela CLT.

Opção C: contratar alguém em meio período

O regime de tempo parcial permite contratos de até 30 horas semanais sem hora extra, ou de até 26 horas com até 6 horas extras (CLT, art. 58-A). O salário é proporcional ao de quem faz a mesma função em tempo integral (§ 1º).

Na simulação, um contrato de 16 horas custaria em salário cerca de R$ 2.200 × 16 ÷ 40 = R$ 880,00 por mês, mais encargos, benefícios como vale-transporte, custo de recrutamento e tempo de treinamento. Em troca, a loja ganha uma pessoa que pode cobrir os horários de mais movimento, como o sábado, sem depender de hora extra de ninguém.

Opção D: contratar alguém em tempo integral

Um quinto vendedor em 40 horas leva a equipe a 200 horas por semana, 24 a mais do que a loja tinha. Essa sobra serve para cobrir férias, faltas e picos. O custo é um salário inteiro mais encargos e benefícios. Faz mais sentido quando a loja já pagava muita hora extra antes da mudança ou quando há planos de ampliar o horário.

Opção E: reorganizar antes de contratar

Antes de decidir, confira se a loja precisa mesmo das mesmas 176 horas:

  • Vendas por hora. Se a primeira hora da manhã vende pouco, abrir mais tarde ou escalar menos gente nesse horário pode reduzir a falta.
  • Turnos escalonados. Entradas e saídas em horários diferentes cobrem melhor os picos do que todo mundo no mesmo horário.
  • Folgas nos dias fracos. As folgas da 5x2 não precisam ser no sábado e no domingo, como explicamos em a folga da 5x2 tem que ser sábado e domingo?.

Passo 4: comparando lado a lado

Opção Horas cobertas por semana Custo direto mensal (simulação) Principal risco
A. Hora extra 16 cerca de R$ 1.138,50 + reflexos e encargos Hora extra habitual, cansaço, sem folga para cobrir faltas
B. Banco de horas 0 de forma permanente Sem pagamento de adicional se compensar no prazo Não resolve falta fixa; vira hora extra se não compensar
C. Meio período (16h) 16 cerca de R$ 880,00 + encargos e benefícios Recrutar e treinar; achar alguém para o horário certo
D. Tempo integral 40 R$ 2.200,00 + encargos e benefícios Custo maior; sobra de horas se não houver demanda
E. Reorganizar Depende Sem custo direto Exige dados de vendas e de ponto confiáveis

Os valores não são comparáveis sem os encargos e benefícios, que dependem do regime tributário e da convenção. O que a tabela mostra é a ordem de grandeza e o tipo de risco de cada caminho.

Gráfico comparando quatro caminhos para cobrir 16 horas semanais: hora extra, banco de horas, meio período e tempo integral, com horas cobertas e riscos de cada um

O que está em disputa

Para muitos empregadores, a hora extra é o caminho natural: não exige contratar, não aumenta o quadro e pode ser reduzida se o movimento cair. Para os trabalhadores e seus sindicatos, hora extra todo dia é a jornada longa de volta por outro nome, o que esvazia o objetivo da emenda. A lei não proíbe hora extra habitual, e a CLT diz que ela não descaracteriza o acordo de compensação nem o banco de horas (art. 59-B, parágrafo único). Mas o custo cresce com os reflexos, e a convenção coletiva pode trazer limites próprios. A decisão é de gestão, e ela fica melhor quando se baseia no ponto real da equipe, não em estimativa.

O que levar para a contabilidade

  1. Horas trabalhadas por pessoa nos últimos 3 meses, com as horas extras.
  2. Saldo de banco de horas de cada colaborador.
  3. Horário de funcionamento e vendas por dia e por hora.
  4. O que a convenção coletiva diz sobre hora extra, banco de horas, tempo parcial e escala.
  5. As opções que você quer comparar, com o custo completo de cada uma.

Como o RHone ajuda

O RHone registra o ponto pelo celular ou num terminal da empresa e calcula espelho de ponto e banco de horas dia a dia. Com isso, você sabe quantas horas extras cada pessoa fez no mês e qual o saldo do banco antes do fechamento, que são os números de partida dessa conta. A escala e o cálculo da folha continuam com a empresa e a contabilidade. Conheça o RHone para empresas. O debate mais amplo sobre o impacto no comércio está em a 5x2 vai quebrar o pequeno comércio?.

Perguntas frequentes

Posso pagar hora extra todos os dias?

A CLT permite até 2 horas extras por dia (art. 59) e diz que a hora extra habitual não descaracteriza o acordo de compensação (art. 59-B, parágrafo único). Mas a hora extra habitual gera reflexos em descanso semanal, férias, 13º e FGTS, e a retirada depois de 1 ano pode gerar indenização (Súmula 291 do TST).

Quem trabalha meio período pode fazer hora extra?

Depende do contrato. Até 26 horas semanais, admite até 6 horas extras por semana. Acima de 26 e até 30 horas, não admite hora extra (CLT, art. 58-A).

O banco de horas resolve a falta de horas da 5x2?

Só em parte. Ele ajuda a absorver picos, mas toda hora acumulada precisa ser compensada com folga no prazo do acordo. Se a falta de horas é permanente, o banco só adia o problema.

Quanto custa um funcionário além do salário?

Depende do regime tributário da empresa (Simples Nacional ou outro), da atividade, dos benefícios e da convenção coletiva. Por isso este artigo não usa percentual de encargos. Peça à sua contabilidade o custo total por colaborador.

A hora do funcionário fica mais cara mesmo sem mudar o salário?

Fica. Com o mesmo salário e menos horas, o valor da hora sobe. Na simulação, foi de R$ 10,00 para R$ 11,00, e a hora extra de R$ 15,00 para R$ 16,50.

Conclusão

Na simulação, a loja precisa cobrir cerca de 69 horas por mês. Hora extra é o caminho mais rápido, mas tem reflexos e riscos que crescem com o tempo. Banco de horas resolve picos, não falta fixa. Meio período e reorganização da escala costumam ser as opções que mais merecem uma conta cuidadosa. Em todos os casos, a decisão começa pelo ponto real da equipe.

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Fontes